
Inconformado por natureza, quer sempre mais e exige aplicação e força de vontade aos seus jogadores da mesma maneira que coloca desafios a ele mesmo. Para além de querer continuar a evoluir, actualmente, tem o maior desafio da curta carreira: fazer dos juvenis do Cruz Campeões!
Desafio formação – “Tenho o coração muito perto da boca”
LSV: Depois de teres representado o FC Porto nos escalões de formação, o que te levou a terminar a carreira de jogador tão cedo? O que correu mal?
MR: Diversos factores, um deles, talvez o mais importante, foi ter sido diagnosticado Cancro de Pele ao meu pai e por conseguinte tive de começar a trabalhar para ajudar nas despesas da casa, o que me impediu de assinar um contrato com o Gondomar S. C. por impossibilidade de treinar bi-diariamente e nos horários em que se realizavam os treinos e também pelos valores que me tinham apresentado.
LSV: Se pudesses voltar atrás, o que farias de diferente?
MR: Se tivéssemos essa possibilidade, acho que faríamos muita coisa diferente, mas tudo se prende com o momento. Se os momentos fossem os mesmos talvez me contivesse mais nas palavras, tenho o coração muito perto da boca, ainda hoje é assim.
LSV: O Vítor Baía, numa entrevista, referia que o que sentia mais falta era o nervoso miudinho dos grandes jogos. Do que sentiste mais falta quando abandonaste a competição enquanto jogador?
MR: Do balneário, não me refiro ás instalações (risos), mas sempre estive em clubes com balneários excelentes, desde o F. C. Porto, S. C. Salgueiros, Gondomar S. C. e culminando no S. Roque. Sinto também saudades da adrenalina de sermos nós a estar lá dentro e a decisão do jogo passar também por nós.
LSV: És um treinador jovem e tiveste como primeiro desafio orientar os iniciados do FC Cerco do Porto, um clube muitas vezes visto como uma equipa de «insurrectos» e oriundo dum bairro problemático. Sentiste essa (in)diferença nos teus adversários?
MR: Não posso dizer que não, efectivamente percebia que os nossos adversários, os árbitros e até o público, empolavam muito mais o que fazia um jogador do Cerco e amenizava uma situação idêntica protagonizada pelos jogadores adversários. A titulo de exemplo uma situação que aconteceu no final do jogo contra o Maia, em que os meus jogadores foram insultados por jogadores e inclusive alguns pais e que depois de tudo sanado aquilo que ouvíamos era que equipas como o Cerco não deviam existir porque só queriam problemas, o que não foi de todo verdade. Mas também consegui que muitos adversários, no final dos jogos nos aplaudissem e nos congratulassem pela nossa disciplina. Isso deixava-me muito orgulhoso, não só por mim, mas principalmente por eles.
LSV: Passaste dois anos no FC Cerco do Porto, onde orientaste miúdos com grandes carências, tanto a nível económico como afectivo, onde, possivelmente, eras a maior referência que eles próprios tinham. Até que ponto é importante a componente humana dum treinador na relação com os seus jogadores?
MR: Penso que um treinador, além de ter de ensinar a jogar futebol, é principalmente um gestor de recursos humanos. Encontrei muitos “miúdos” fortes e que nada os abatia, mas também encontrei o contrário. Além disso eu próprio nasci e cresci no Bairro do Cerco e sei bem o que é passar dificuldades, tanto financeiras como afectivas, aproveitei um pouco desta experiência de vida para conseguir relacionar-me e entender melhor todos os meus jogadores. Posso dizer, modéstia à parte, que tinha jogadores que falavam mais comigo do que com os pais e por conseguinte eu conhecia-os melhor do que os próprios pais.
LSV: A ausência do FC Cerco do Porto, este ano, no campeonato, espelha alguma falta de organização que tu próprio experienciaste enquanto representaste este clube?
MR: Com certeza. O F. C. C. P, tornou-se um clube de proveito próprio em que as pessoas que estão na parte directiva começaram a usar-se do clube e esqueceram-se que a sua principal função é servir o clube. Nos dois anos que lá estive assisti a muitas coisas e quase nenhuma em proveito das camadas jovens. Para a formação nunca havia dinheiro e nunca um director aparecia num treino ou num jogo, nem tão pouco para desejar um Feliz Natal! Foram dois anos muito desgastantes e que todas essas situações me levaram a tomar a decisão de que chegara a altura de sair.
LSV: Este ano aceitaste um novo desafio e colocaste a fasquia bem alta. Pelo que já conheces da tua equipa e dos teus adversários, vais fazer dos teus «miúdos» Campeões?
MR: Estamos a trabalhar para isso, sabemos que é uma caminhada difícil, mas confio plenamente no grupo que temos. Todos nós trabalhamos para conseguir atingir esse objectivo, os jogadores, a equipa técnica, os directores e toda a estrutura do clube sabem qual a meta a atingir e de que forma teremos de trabalhar para lá chegar.
LSV: Sentes que as tuas aptidões enquanto treinador evoluem constantemente com cada treino ministrado ou cada jogo orientado?
MR: Acho que em tudo na vida estamos sempre a aprender, eu aprendo com toda a gente e gosto disso.
LSV: A tua equipa treina como joga ou joga como treina?
MR: A minha equipa é trabalhada para jogar como treina. Tento com que os meus treinos sejam o mais aproximado à realidade dos jogos e para que eles estejam preparados para a imprevisibilidade do próprio jogo.
LSV: Quais os teus objectivos no mundo do futebol? Onde te vês daqui a 10 anos?
MR: Costumo dizer que daqui a 10 anos quero estar a treinar as camadas jovens do Chelsea (risos). Quanto aos meus objectivos, aquele que pretendo realizar a curto prazo é fazer dos juvenis do Cruz Campeões, a médio longo prazo passam por aprender cada vez mais e assim estar preparado para avaliar as propostas que me surgirem.
LSV: Por último, o Milton Ribeiro guarda-redes tinha lugar em qualquer equipa do Milton Ribeiro mister?
MR: (risos) Sou suspeito, mas vou tentar responder com a maior imparcialidade e objectividade possível. Eu sempre fui um jogador muito aplicado, concentrado, aguerrido e com muita força de vontade, acho que tinha algumas capacidades físico-técnicas também (risos). Para jogadores com estas qualidades há sempre lugar nas minhas equipas.
Uma profecia final de amigo: o sucesso na carreira de treinador vai compensar, de certeza, o abandono prematuro das balizas!
Luís São Vicente
Etiquetas: Entrevistas
1 comentários:
Salgueiros 3 - 2 Foz
Progresso 1 - 2 P. Rubras
Rio Ave 3 - 0 Custóias
Cruz 5 - 1 Leça
Cerco Porto * - Torrão
Lavrense 1 - 3 Leça do Balio
Folga: Gatões
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